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domingo, 24 de março de 2019

O Havaí odeia recordar James Cook e nós compreendemos os motivos

O Havaí já foi governado por uma monarquia. Quando o rei Kalakaua Uokalani faleceu em 1891, os havaianos já tinham passado por tudo: os brancos já tinham pintado o seu quadrinho clássico por lá, com traços de sequestro de rei, abertura das ilhas para rapinagem que trouxe baleeiros violentos que implantaram a prostituição das meninas e mulheres e daí, doenças que dizimaram boa parte da população.
Aquele caos que sempre sucedeu a chegada do europeu em terras onde os nativos vivem sua cultura integrada perfeitamente à natureza e sem sobressaltos. 
Em 1891, após a morte do rei Kalakaua, sua irmã, Lili'Uokalani, assumiu o poder e isso à principio facilitou a comunicação com os representantes dos Estados Unidos, pois Lili, apesar de conhecer a necessidade de uma reação, tinha espírito diplomático e levou a situação da unidade e independência havaiana o máximo que pode, mas aí já havia embaixada e tropas americanas instaladas, um sujeito se arrogando a presidência da República que fundava... O governo americano não desejava exatamente isso, mas não se mobilizou para garantir os direitos do reino a Lili'Uokalani. Seus guerreiros se mobilizaram, mas antevendo um derramamento de sangue que não reverteria em vitória, Lili abdicou do trono.
Pronto! Passava o Havaí a fazer parte da América, a ser uma posse valiosa e irremediavelmente conectada aos brancos e seus costumes. 
Assim tem sido e não há chance de reversão, não há mais motivos para luta, mas tampouco a memória de tudo isso deixa de exaltar ânimos de um povo que manteve sua história remota passada de geração a geração verbalmente, ainda hoje em torno das fogueiras e mesas os descendentes de Lili'Uokalani rememoram a época em que correr nu em atividades familiares e sociais e esportivas era normal, trocar de esposa volta e meia era um jogo social inofensivo e o poder dos clãs era mantido através da poligamia e uniões entre parentes próximos. Gays se casavam e isso era simples questão de gosto. 
Pecado mortal? Punido mesmo com a morte era homens e mulheres fazerem a refeição juntos. Imoral demais para o gosto do havaiano antigo. Um tabu.
Com o branco e a nova religião obrigatória os costumes públicos mudaram e a terra passou a valer moedas. Isso, ao modo de ver havaiano tem o lado ruim e o lado bom, ainda tem gente vivendo na terra que seu clã ocupou desde a origem do mundo, e bom mesmo e ganhar uma grana vendendo propriedades aos enlevados e apaixonados visitantes que chegam e não querem  mais ir embora.
O turismo é sua fonte principal de renda, mas o rancor pelo passado revivido constantemente na roda dos habituais luaus não deixa de permear as relações entre os que se mantém na cultura ancestral e os "invasores".
Quando nós deixamos de ser invasores?
Primeiro, quando pagamos o preço exigido pela terra que nos é vendida. Depois, quando compramos no comércio local e nossos filhos passam a sentar-se lado a lado com os considerados nativos nas escolas para sofrerem o bulliyng que tem sido inerente nestes choques entre culturas, apesar das arestas muito aplainadas, seguimos ensinando as crianças a reagir de acordo com nossos rancores ancestrais. Quem se muda de cidade, mesmo que more no mesmo país, sabe que as crianças pagam um alto preço até serem aceitas quento mais fechada for a sociedade, pior é. O saldo negativo de ensinarmos as crianças a odiar o "invasor" que está pagando para estar ali, muito mais caro do que os nativos, temos visto nos jornais.
A campanha da vez está sendo levantada contra o dono do Facebook, que foi de férias para uma das ilhas havaianas e pensou em abandonar o trabalho e viver lá. Decidiu que seus filhos tinham que crescer em meio aquele paraíso e começou a negociar um pedaço de terra que ele pudesse formar um parque, porque além de se apaixonar pela ideia de aproveitar o ventinho e tomar banho naquele mar limpinho, ele começou a ver que nem todo mundo cuida bem daquele pedaço do céu; a parte dele ele decidiu manter fantástica, decidiu revitalizar alguma coisa degradada, decidiu...decidiu que se quiser andar pelado, se sua esposa quiser andar pelada, se quiser criar seus filhos vivendo de forma mais naturalista, quer privacidade. Resolveu então traçar um perímetro em torno da terra que comprou e adquirir retalhos de terra onde ainda habitam famílias locais para poder fechar o seu parque. Mas que fechar que nada! No mesmo minuto foi como se ele fosse a reencarnação do maldito James Cook, e alguns havaianos já começaram a se agitar diante de tamanha afronta como é querer viver escondido. No Havaí, e escondido? Eles pensam que isso é demais.
Isso é demais, demais... não poder dar risadinhas vendo Marl Zuckerberg peladão na praia? Não poder contar em roda de amigos como são os seios da mulher do Mark?  Simplesmente igual ao James Cook!
É assim que ao contratar advogados para realizarem as transações com os últimos proprietários do parque, Mark e Priscila ultrapassaram a barreira do bom senso. E começaram a se mobilizar para não vender nem por ouro, o que vale simplesmente o valor que tem. Mark, na ideia dos pequenos proprietários deveria ir pessoalmente negociar, e inclusive eles têm a expectativa de que poderão retalhar o figurino da Priscilla no supermercado, e eles não têm nada a ver se Mark e Priscilla são filantropos, estão envolvidos com milhares de grupos de trabalho para edificação de um mundo melhor, porque eles, estes havaianos nunca saíram do seu terreno e a eles não importa a diferença entre a agenda deles e a do novo vizinho, se ele quer morar lá, vai ter que ser como eles, e assim esquecem de que se fosse como eles, Mark não poderia comprar muita terra e levar a família de helicóptero para passar o final de semana ou alguns meses nas férias. E ele não vai se fechar em casa porque não gosta deles, é porque quando ele foi para lá, ele sarou de toda ansiedade e stress que a vida que ele leva causam, e tendo casa lá ele espera repetir o período de sossego que teve da primeira vez. Só isso, não é desgosto em curtir os costumes locais, em ver as caras locais, no meu entender ele não quer ver muitas caras além da família e amigos íntimos quando vai para as férias, e se quiser e quiser ele mesmo escolher quem vai ver? O que nós temos a ver com isso? 
Vender ou não vender, eis a questão que compete a estes proprietários determinar. Vender bem, que mal tem? Melhor do que ficar ilhado com uma reles entradinha para sua pequena propriedade como se fosse um bicho em exposição no parque do Mark e da Priscila! Eles não querem isso, os havaianos estariam tão confusos quanto a identidade do casal de jovens com suas duas filhinhas, e quereriam descontar neles a gana que sentem dos brancos de outras eras?
A Rainha Lili'Uoklani foi muito inteligente compreendendo o momento, ela teve a grandeza inesperada nos monarcas, que põem o povo para brigar e morrer por eles, e ela entendeu que deveria aconselhar seu povo a conviver com os brancos em harmonia e naquele momento ela não simplesmente vendeu um terreno e se mudou para um melhor com o sobre valor que exigiu, ela abdicou da coroa dela e no momento e da forma que fez isso, ressaltou que a nobreza que herdara era merecida. O sangue dela provavelmente circula nas veias de todo o povo havaiano, que agora vai ter que decidir se para de infernizar o Mark do facebook e deixa ele montar seu pedaço no céu no Havaí, ou se vai calçar o pé porque desejaria que algum grupo que degradasse a natureza e o nome do Havaí, se instalasse em seu lugar. Paraísos na Terra não faltam. Não faltam sociedades que andariam de joelhos uma temporada para ter a família facebook a promover e valorizar sua região.
É seguro para os jovem casal de nerds e suas duas filhinhas morarem em um lugar que promove tanta desordem apenas por ego e expectativas de convívio social frustrados? 
É preciso conhecer a simplicidade e empatia desta família, antes de promover uma revolta tola para um povo tão bacana quanto o havaiano.
A humanidade está observando o desenlace do caso com atenção.
Se não é impossível ao nativo, livrar-se do branco e da sua cultura, também ao branco não é possível viver longe, eles se apaixonam e querem ficar. 
Resta ao nativo, capitalizar tal paixão e seguir evoluindo, juntos e ensinando costumes bons aos que a si acorrem cansados dos costumes maus das grandes cidades.
Borboleta Morpho Epistrophus Caternaria, fotografada pelo meu filho, o Hawkins Joseph.
Estávamos para poder uma árvore de ingá que ameaça cair sobre a casa no próximo inverno, mas descobrimos que é o local onde as raras Morphus (neste eco-sistema), depositaram os ovos da estação, o que significa que nada de poda!